Os públicos se movimentam: pesquisa do IPÊ investigou a comunicação na mobilização cidadã contra a superexploração das águas minerais de São Lourenço
Redação IPÊ
A agradável cidade de São Lourenço, encravada nas montanhas do sul de Minas Gerais, a 370 quilômetros da capital, Belo Horizonte, é conhecida mundialmente por suas águas termais e minerais de excepcionais propriedades terapêuticas. Fundada no século XIX ao redor de suas fontes naturais, São Lourenço desenvolveu-se como um importante centro de turismo e saúde, atraindo visitantes em busca dos benefícios das águas radioativas e alcalinas que jorram de suas nascentes.
O interesse pelos poderes medicinais de uma fonte na região levou os fundadores Bernardo Saturnino da Veiga e João Pedro da Veiga a comprarem as terras onde se localizava a fonte, em 1890 e a fundarem, no mesmo ano, a Companhia Águas de São Lourenço. A exploração comercial da água teve início em 1892, e a empresa privada foi a grande responsável pelo desenvolvimento urbano da localidade, construindo as primeiras ruas, pontes, igrejas, hotéis e infraestruturas, o que culminou na emancipação do município em 1927. Além da produção de água engarrafada, a companhia também fundou e administra o Parque das Águas, um balneário com estrutura equivalente às casas de banho europeias, onde as águas de nove fontes diferentes são utilizadas para tratamentos terapêuticos.
A importância da água mineral para São Lourenço abrange as esferas econômica, simbólica e identitária. Economicamente, o recurso é a base do turismo local, atraindo visitantes para as estâncias hidrominerais e gerando receita por meio de serviços e do comércio. O município integra o Circuito das Águas de Minas, uma governança turística reconhecida pelo Estado. Simbolicamente, as águas estão associadas à tradição e à identidade da cidade, sendo um patrimônio imaterial que compõe a memória coletiva da população.
Essa forte ligação ficou ainda mais evidente quando a gestão da Companhia passou às mãos da multinacional Nestlé, de 1992 a 2018. Ela promoveu reformas que destruíram estruturas históricas como o fontanário original da Fonte Oriente, cujos leões esculpidos eram símbolo do parque, da marca comercial e da própria cidade, gerando comoção e revolta entre os moradores, que passam a entender essas perdas como um problema coletivo. Outras modificações, como a construção de um muro de sete metros de profundidade que isolou o gás carbônico do aquífero e a perfuração de um poço irregular (Poço Primavera), submeteram a água a um processo proibido de desmineralização para produzir o selo Pureza Vital. Observou-se uma redução na vazão e na mineralização das fontes, o aparecimento de rachaduras nos fontanários e a alteração do gosto característico das águas, instalando-se um conflito socioambiental que motivou a formação de grupos mobilizados como o Movimento Cidadania Pelas Águas (2001) e o Amar’Água (2013), que denunciaram a incompatibilidade entre a lógica mercadológica e neoextrativista da empresa e a necessidade de proteção ambiental, uso sustentável e preservação da identidade cultural da cidade.
Foi exatamente a problemática geradora deste conflito e as formas de mobilização que chamaram a atenção da jovem pesquisadora Fernanda do Nascimento Ribeiro, estudante do Curso de Jornalismo da UFMG, que cumpriu o seu trabalho de conclusão de curso investigando como se deu a formação e a movimentação de públicos (moradores, ativistas e organizações da sociedade civil) em torno dessa situação, compreendendo as dinâmicas comunicacionais, as estratégias de resistência e os fenômenos de midiatização, judicialização e internacionalização do conflito. “Públicos em movimento: conflito e resistências em torno da água mineral de São Lourenço (MG)” teve orientação do Prof. Márcio Simeone Henriques e foi defendido em julho de 2025. O estudo conduziu sua abordagem à luz das dimensões cognitiva, performática e organizativa da formação dos públicos, perspectiva cara ao Grupo de Pesquisa em Instituições, Públicos e Experiências Coletivas – IPÊ.
A trajetória de Fernanda na pesquisa, no entanto, começou ainda antes da formulação e realização de seu projeto, quando participou, como voluntária e bolsista de Iniciação Científica, do projeto de pesquisa do IPÊ “Vulnerabilidades comunicacionais dos públicos em situação de conflito e controvérsia na área ambiental”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – Fapemig (2022 a 2024). Assim, este trabalho é um dos frutos daquela pesquisa realizada pelo Grupo.
Mobilização e vigilância civil num conflito socioambiental de longo curso
A pesquisa realizada no TCC investigou como a população local se mobilizou contra o que classificou como superexploração do recurso, diante de transformações territoriais, ambientais e simbólicas promovidas pela empresa Nestlé, buscando compreender as estratégias de resistência dos ativistas, incluindo protestos, judicialização do caso e internacionalização das denúncias.
Além de uma fundamentação teórica sobre conflitos ambientais e comunicação pública, a metodologia do estudo combinou análise documental e midiática exaustiva (com coleta de 176 publicações entre 2001 e 2018), entrevistas semiestruturadas com três atores-chave: uma advogada da ONG Nova Cambuquira, um ativista que atuou como porta-voz internacional e a jornalista que produziu reportagens sobre o caso. O trabalho destaca fenômenos como a midiatização do conflito – que teve picos em 2001-2006, 2013 e 2018 – e a tentativa de silenciamento dos ativistas pela grande imprensa brasileira, o que levou o movimento a aproveitar a oportunidade de visibilidade na Europa, onde a reputação da Nestlé é mais sensível.
A pesquisa também abordou a espionagem de ativistas pela Nestlé (revelada em 2008) e a atuação de outros grupos e movimentos, como o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em apoio à causa. Foi este movimento que, inclusive, realizou um protesto significativo na Companhia Águas de São Lourenço em 20 de março de 2018, mobilizando cerca de 600 mulheres trabalhadoras rurais que ocuparam a fábrica da Nestlé na cidade. O protesto ocorreu em paralelo ao 8º Fórum Mundial da Água (FMA) em Brasília e ao Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), e tinha como pauta mais ampla a denúncia contra a privatização dos recursos hídricos no Brasil, incluindo a suspeita de negociação do Aquífero Guarani pelo governo Temer com a Nestlé. O trabalho destaca que a ação do MST atingiu repercussão nacional e internacional, sendo mencionada por diversos veículos jornalísticos e pela emissora alemã Deutsche Welle, alçando o conflito de São Lourenço a um novo patamar no debate público.
Do ponto de vista da comunicação nos processos de mobilização social, as conclusões apontam que o conflito não tem um fim definitivo, mas alterna fases de latência e reaparição pública, sendo mantido pela memória organizacional dos ativistas e por fatores incidentes (como mudanças na legislação mineral). A venda da Companhia para o Grupo Edson Queiroz (Minalba), em 2018, não resolveu a controvérsia, pois os questionamentos sobre o modelo predatório persistem. O trabalho conclui que os públicos exerceram não apenas papel de protesto, mas também de vigilância civil, mantendo-se em prontidão para novas mobilizações, e que o caso evidencia o embate entre uma visão mercadológica e neoextrativista da água versus sua apropriação como bem comum, ambientalmente protegido.