Dois olhares sobre lideranças comunitárias: para uma microssociologia da confiança na mobilização de públicos vulneráveis
Márcio Simeone HENRIQUES
Nos processos de mobilização social é notório o papel das lideranças comunitárias. Elas funcionam como catalisadoras essenciais para o processo, pela sua capacidade de articular demandas coletivas, gerar confiança e inspirar ação nos grupos que representam. De maneira geral, entender lideranças é fundamental para estudar e compreender os públicos, porque líderes funcionam como mediadores que canalizam, interpretam e transformam as aspirações difusas de grupos em discursos e ações coerentes. Sendo um público um conjunto de pessoas articuladas em função de sua afetação por problemas que reconhecem em comum, embora possam ser menos ou mais difusos, tendem sempre a reconhecer e seguir pessoas que, por sua atuação, tenham a capacidade de dar significado e direção às suas preocupações e desejos, alcançar visibilidade e dar concretude aos problemas e, eventualmente, propor formas de ação organizada. Por isso não podemos assumir a existência de públicos sem algum tipo de liderança, menos ou mais proeminente, muito embora possam variar seus níveis e graus de organização. Assim como não há público sem líder, não há líder sem públicos em torno de si.
Sendo também os públicos uma instância microssociológica de opinião compartilhada, é reconhecida há muito tempo a sua importância em termos de influência. Pela análise de lideranças conseguimos entrar numa dinâmica bem viva desses agrupamentos, identificando como se formam possíveis consensos ou dissensos, como se estruturam o poder e a influência em relação aos problemas públicos e como alguns discursos e atitudes ganham prevalência sobre outros. Dentre os públicos, aqueles aos quais costumamos chamar de “comunidades” podem ser vistos dentro de uma estrutura localmente definida, com uma esfera própria de interinfluências, onde as lideranças indicam por onde o poder territorialmente circula, revelam alianças e conflitos e ajudam a mostrar como a opinião pública, a partir daquele âmbito, é construída, desvelando processos de mudança e de resistência. Para isso, temos que ver as comunidades tanto como espaço de construção coletiva como de disputa, marcados pela partilha intersubjetiva de sentidos. Numa perspectiva prática, quando falamos de lideranças comunitárias, elas funcionam como mediadoras entre um público local e estruturas institucionais, mantendo a memória das lutas, educando novas gerações e garantindo que as demandas sejam continuamente pressionadas junto às autoridades. Isso ressalta tanto um papel para dentro, que auxilia na coesão daquele público, quanto para fora, na capacidade de representar, em discurso e ação, aquele público para os demais públicos e para as instituições. Em ambas as direções, existe uma base de confiança que forma um pacto, menos ou mais tácito, entre líderes e liderados.
Pelo enraizamento nas suas comunidades, as lideranças tendem a compreender profundamente as necessidades locais e conseguem traduzir demandas individuais em projetos coletivos, ou seja, produzem constantemente uma mediação entre os sentidos de individual, coletivo e público das questões da vida ordinária. Sua legitimidade vem, principalmente, do reconhecimento de algum compromisso com o bem comum. Elas próprias são, assim, responsáveis em grande medida, pela formação e manutenção daquele público “como uma unidade”. Inspirado por dois trabalhos recentes de nosso grupo de pesquisa, desejo fazer aqui algumas reflexões sobre como a confiança é um fator chave na constituição das comunidades como públicos situados e alguns dos seus limites.
Lideranças comunitárias da periferia urbana em ação
Dois trabalhos recentes no âmbito do nosso Grupo de Pesquisa em Instituições, Públicos e Experiências Coletivas – IPÊ e da linha de pesquisa “Comunicação, territorialidades e vulnerabilidades”, do PPGCOM/UFMG tomaram para si a tarefa de ver lideranças comunitárias em ação. O primeiro, que orientei, foi a pesquisa de Mestrado de Nathália Freitas Vargens, defendida em 2023. O segundo, orientado por Fábia Lima e co-orientado por Daniel Reis Silva, foi defendido em 2026, de autoria de Emanuela de Avelar São Pedro, também no Mestrado. Ambas convergem para o estudo da potência da comunicação comunitária em territórios periféricos da Região Metropolitana de Belo Horizonte, adotando uma perspectiva relacional e praxiológica para demonstrar como a agência de líderes locais é fundamental na mediação de processos sociais e informacionais.
Nathália focaliza na questão de como esses atores utilizam a oralidade para construir imaginários convocantes que mobilizam sentidos e vontades coletivas. Através de estudos de caso com três lideranças, analisa como eles operam como reeditores sociais, interpretando e adequando mensagens externas aos códigos locais para gerar engajamento e corresponsabilidade. Ela demonstra, com isso, como esses atores manejam o tempo e a imaginação para convocar a coletividade a vislumbrar novos horizontes. Emanuela, por sua vez, investiga como a desinformação atravessa as relações sociais em territórios periféricos, propondo uma abordagem que vai além do ambiente digital para centrar nas dinâmicas presenciais e cotidianas. Com base na experiência do Observatório Participativo da Desinformação, um projeto da Agência de Iniciativas Cidadãs – AIC, ela analisa como a desordem informacional impacta diretamente a garantia de direitos básicos e como os líderes e referências comunitárias atuam como prolocutores e reeditores sociais legítimos.
Os principais achados e contribuições das duas dissertações convergem para o entendimento de que a comunicação comunitária no meio urbano é um processo no qual a agência das lideranças locais como reeditores sociais é central para a mediação de sentidos e a garantia de direitos. Na visão de Juan C. Jaramillo López [1], que também encontramos desenvolvida na obra de José Bernardo Toro [2], um reeditor social é uma figura que possui um público próprio e atua como mediador que interpreta, filtra e reorganiza as mensagens e discursos provenientes de sistemas externos, como o poder público, a mídia tradicional e as plataformas digitais, adaptando-os aos códigos, valores e linguagens próprios daquele público. Essa ideia perdura há muito nos nossos estudos sobre mobilização social e sobre públicos. Ela não corresponde exatamente àquela noção de liderança de opinião já arraigada nos estudos de mídia e opinião pública. Está mais voltada para o complexo jogo de influências que se dá em camadas, através de papéis sociais que os membros de um público exercem. São categorias de ação, portanto.
Na concepção de Jaramillo, incorporada por Bernardo Toro, um produtor social é a pessoa ou instituição que dá início a um processo de mobilização, criando as condições econômicas, institucionais, técnicas e profissionais para que ele ocorra; tem a intenção de transformar a realidade, conduz negociações que conferem legitimidade política e social ao movimento e atua como precursor, respeitando a capacidade das pessoas de decidirem coletivamente. O editor social é o responsável por converter as mensagens e o imaginário da mobilização em formas, objetos, símbolos e signos adequados ao campo de atuação; sua função é estruturar códigos e materiais para que a mensagem seja compreendida, absorvida e possa gerar sentimento, decisão e ação (eventualmente se pode pensar aqui num profissional de comunicação, como Jaramillo faz em seu sentido original). O reeditor interpreta, enriquece e adapta a mensagem aos códigos, valores e experiências de seu público, não medindo sua qualidade pela fidelidade ao original, mas pela participação gerada e pelo correto entendimento dos objetivos.
Os trabalhos das pesquisadoras focalizam corretamente os líderes no papel de reeditores sociais, papel que eles realmente desempenham junto aos seus públicos próprios. Eles fazem isso de forma difusa no cotidiano. Contudo, eu mesmo gostaria de enfatizar que eles podem muitas vezes não se limitar a este papel quando os vemos num processo de mobilização em seus territórios, sendo possível que encarnem também os outros dois, caso reúnam as condições objetivas de iniciar um processo de formação mais organizada dos públicos e o de estruturar o discurso e os materiais simbólicos disponíveis em produtos comunicacionais. Com efeito, muitas das lideranças que figuram nas duas investigações agem assim. Uma observação mais atenta e acurada, portanto, do trabalho desses líderes, pode desafiar essas categorias. Porém, não tira a importância de uma concepção implícita nela que é a de edições sucessivas que, de fato, compõem o processo de circulação no âmbito dos públicos.
O que o trabalho de Nathália demonstra é que lideranças comunitárias utilizam a oralidade, numa concepção de tempo espiralar, para articular vivências passadas e expectativas futuras, construindo imaginários convocantes que transformam o presente em potência de ação mobilizadora. É interessante observar aí como se produz e reproduz no contexto de uma comunidade, o seu sentido comum, em propósito e ação, seja tecendo todo o tempo uma narrativa histórica, seja delineando um caminho futuro que convoque as pessoas a alguma atitude no presente, o que é fundamental para criar algum tipo de coesão neste público. Nos três casos que examina, estão pessoas com grande capacidade de produção e edição, que as dota de poder de falar não apenas para a própria comunidade, mas para além dela, como prolocutoras – autorizadas a falar em seu nome para outros públicos e perante as instituições, tanto em nível informal como formal.
Já a pesquisa de Emanuela extrai dessa atuação como reeditores sociais uma consequência fundamental: a de que os líderes consolidam um capital simbólico que os torna pontos focais de checagem e mediação diante da desordem informacional. Evidencia-se que a capacidade que eles possuem de manter a confiança de um público próprio possibilita que sejam reeditores e também, em reverso, sendo reconhecidos e aceitos como reeditores, reforçam suas relações de confiança. Essa relação reflexiva é totalmente pragmática. Se dá na ação de enfrentamento dos problemas cotidianos e na necessidade de realizar todo o tempo essas mediações informacionais que garantem as soluções para a vida prática e a superação constante de vulnerabilidades, ao mesmo tempo em que mantêm os principais pilares que constituem as comunidades como públicos. Com isso, evidencia que, em contextos de vulnerabilidade comunicacional e desordem informacional, o enfrentamento à desinformação não se resolve apenas com soluções técnicas, mas através de redes de confiança e pretensões de solidariedade tecidas no território, onde o líder atua como um prolocutor legítimo.
Uma microssociologia da confiança (e da desconfiança)
Ambas as pesquisas produzem uma espécie de microssociologia da confiança, ao fundamentarem suas análises nos conceitos de créditos de confiança e pretensões de solidariedade de Leon Mayhew [3], aplicando-os às dinâmicas das interações cotidianas em territórios periféricos. Estes conceitos explicam como o líder se torna um prolocutor legítimo ao compartilhar vivências, histórias e interesses comuns com os moradores. Essa confiança não é um estado mental isolado, mas uma construção social contínua que exige uma reputação de sinceridade e a emissão de sinais de boa fé, como a longevidade da atuação no território e empatia e acolhimento das dores alheias em momentos de crise.
Contudo, uma microssociologia da confiança em contextos periféricos não pode prescindir de uma análise cuidadosa das tensões internas que atravessam as próprias comunidades, pois a confiança depositada nos líderes convive permanentemente com limites, erros e, em alguns casos, traições. A pesquisa de Emanuela nos mostra que os membros das comunidades confiam em seus líderes mesmo quando eles erram. Isso já sinaliza que a confiança não opera como um cálculo racional de acertos e falhas, mas como um vínculo social bem enraizado em história compartilhada, na presença cotidiana e em expectativas de reciprocidade que, como se vê no trabalho de Nathália, ancora-se no esforço comunicacional contínuo do discurso próximo, basicamente oral (ainda que tecnicamente mediado), que apela ao imaginário.
É preciso observar que o processo de liderança é fundamentalmente dinâmico: líderes podem ser cooptados por interesses políticos ou econômicos, podem divergir entre si, abrir dissidências ou simplesmente sucumbir à sobrecarga de demandas em territórios onde o Estado quase não chega. O que ocorre, então, quando essa confiança é sistematicamente traída? Como se reconstrói um tecido relacional fraturado por abusos de autoridade ou por desinformação reproduzida pelos próprios mediadores? Tais perguntas permanecem em aberto, exigindo um olhar longitudinal que capture não apenas os momentos de cooperação, mas também os de ruptura e rearranjo das lideranças ao longo do tempo.
Paralelamente, é imperioso evitar uma romantização da confiança comunitária como se ela fosse, em si mesma, sempre saudável ou emancipatória. A própria ideia de que “confiar é aceitar a possibilidade de decepção”, nos termos de Niklas Luhmann [4], traz implícita a necessidade de um contraponto crítico: a desconfiança. Em contextos periféricos marcados por violência estatal, abandono institucional e racismo estrutural, desconfiar do Estado, da polícia, da mídia tradicional e até de certas lideranças cooptadas não é um sinal de paranoia ou de deficiências na própria comunicação. É, antes, uma forma legítima de autonomia e resistência. A desconfiança tem o condão de operar como um escudo diante de promessas vazias e de discursos que historicamente só serviram para desmobilizar, criminalizar ou iludir populações vulneráveis. Nesse sentido, o par dialógico confiança/desconfiança não deve ser lido como uma oposição simples, mas como um dispositivo prático para habitar e se mover em ambientes de desinformação, complementando a noção de imaginários convocantes com uma necessária vigilância crítica.
As ambivalências se tornam mais significativas quando observamos o papel concreto das lideranças em seus territórios. Elas são, simultaneamente, depositárias de uma confiança quase familiar, baseada nos créditos acumulados ao longo de anos de atuação, mas também são, por isso mesmo, alvos permanentes de tentativas de cooptação por partidos políticos, organizações religiosas, interesses econômicos locais e, em alguns lugares, pelo crime organizado. Nesse cenário, a desconfiança dos próprios liderados em relação às suas lideranças não é necessariamente um problema a ser sanado, mas um mecanismo de proteção contra formas sutis de dominação que se apropriam da solidariedade comunitária.
O desafio teórico e prático que emerge é o de conceber uma política da desconfiança produtiva, isto é, uma desconfiança que não se limita ao cinismo ou ao isolamento, mas que alimenta formas mais reflexivas e horizontais de organização coletiva. Comunidades que aprendem a desconfiar seletivamente de instituições falidas e de lideranças comprometidas podem, paradoxalmente, fortalecer a confiança em processos próprios de verificação, nos seus fóruns locais, em práticas de memória e em redes de apoio mútuo que não delegam autoridade de qualquer jeito. Uma espécie de desconfiança qualificada não anula o trabalho dos líderes como reeditores sociais e nem daqueles que se erigem como prolocutores legítimos; antes, o submete a um escrutínio permanente que pode torná-lo mais responsivo. A microssociologia da confiança em públicos vulneráveis precisa, portanto, incorporar a suspeita como categoria analítica tão importante quanto o vínculo, especialmente quando se trata de avaliar a sustentabilidade das lideranças ao longo do tempo. E essa suspeita também é matéria-prima das atitudes frente à profusão de informações (e desinformações) circulantes.
Isso implica também repensar as estratégias de enfrentamento da desinformação e de construção de imaginários convocantes. Em vez de apenas tentar restaurar a confiança nas instituições epistêmicas tradicionais (universidades, imprensa, Judiciário) ou mesmo nos líderes locais de forma acrítica, talvez seja mais promissor fortalecer os mecanismos comunitários de validação cruzada, os espaços presenciais de debate e as lideranças que aceitam ser permanentemente escrutinadas por aqueles a quem servem. Nesse movimento, confiança e desconfiança deixam de ser opostos morais e passam a funcionar como duas faces de uma mesma prática democrática em territórios onde a desinformação é, antes de tudo, uma ferramenta de manutenção de desigualdades. Assim, os imaginários convocantes, os que conectam memórias de luta a horizontes futuros, ganham ainda mais força quando acompanhados de uma vigilância ativa e compartilhada, pois é precisamente essa tensão entre esperança e cautela que permite aos públicos vulneráveis navegar pela desordem informacional sem depositar toda sua autonomia nas mãos de um único mediador, por mais legítimo que ele possa parecer. E é bom nos perguntarmos se, diante de novas configurações sociais e de comunidades que não se amoldam mais aos figurinos tradicionais da sociabilidade, não estamos diante de transformações bem mais profundas no arranjo comunitário e na ação de lideranças deste tipo, que convivem ou competem com os mais diversos tipos de reeditores/influenciadores “de fora” do território. O trabalho realizado por Emanuela, particularmente, puxa uma ponta que traz muitas novas indagações neste sentido.
Compreender a dinâmica dos públicos, portanto, exige ir além do simples binômio confiança versus desconfiança, reconhecendo-as como forças complementares, reflexivamente tensionadas, que moldam a resistência, a criatividade e a capacidade de agência, especialmente quando se trata do contexto de vida comunitária. Incorporando essa ambivalência como constitutiva é possível desenvolver estratégias mais horizontais de mobilização social, nas quais os líderes não são depositários únicos da autoridade, mas mediadores permanentemente escrutinados por aqueles que representam.
[1] LÓPEZ, Juan C. Jaramillo. Propuesta general de comunicación pública. Strategy & Management Business Review. v.3, n.2, p.1-17, 2012.
[2] TORO, José Bernardo; WERNECK, Nísia M. D. F. Mobilização social: um modo de construir a democracia e a participação. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
[3] MAYHEW, Leon H. The new public: professional communication and the means of social influence. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
[4] LUHMANN, Niklas. Confianza. Barcelona: Anthropos Editorial, 2005.
Conheça as pesquisas:
Emanuela de Avelar SÃO PEDRO. Desinformação e relações de confiança: experiência territorial a partir da escuta de líderes e referências comunitárias da RMBH. (em breve a dissertação completa estará disponível no repositório da UFMG)
Imagem: criada por IA generativa
Publicado em 06/05/2026