Comunicação organizacional e o complexo pensamento de Baldissera

Márcio Simeone HENRIQUES

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Na I Semana de Relações Públicas de Minas Gerais, que organizamos com um intrépido grupo de estudantes da Graduação, no ano 2000, na Universidade Federal de Minas Gerais, apareceu um jovem gaúcho a apresentar uma comunicação nas sessões livres que pouco antes defendera sua dissertação de Mestrado na Unisinos: “Comunicação Organizacional: O Treinamento de Recursos Humanos como Rito de Passagem”, orientado pela Profa. Ione Bentz. Era ainda pouco ambientado à vida acadêmica, mas apresentava-se já com o vínculo de professor na Feevale de Novo Hamburgo. Seu nome: Rudimar Baldissera.

Não obstante, já se apresentou com excelente credencial, a referida dissertação, publicada em livro. Numa época em que o campo da Comunicação Organizacional ainda era incipiente no país e a área de Relações Públicas timidamente experimentava aportes diferentes dos convencionais, Rudimar apareceu no cenário com um estudo muito competente que combinava elementos da Semiótica em diálogo com Antropologia e Administração, numa perspectiva de cultura organizacional ainda pouco explorada entre nós. Olhando para os processos de treinamento de recursos humanos, trouxe também sua própria experiência na cultura do chão de fábrica, como operário. Se isso já era por si só admirável, também naquela obra ele trouxe para o terreno algumas coisas que iriam acompanhar toda a sua trajetória e preocupação de pesquisa até hoje, das quais destaco a noção de comunicação como o processo pelo qual os sujeitos interpretam as normas da organização e da formulação do discurso organizacional, aquele no qual a empresa narra sobre si mesma, configura as conexões intersubjetivas no seu âmbito e, com isso, estabelece as relações de poder.

Pois bem, sua noção de comunicação organizacional floresceu bastante a partir daí, num entrecruzamento muito produtivo entre as abordagens semióticas e sociológicas e da antropologia interpretativa de Clifford Geertz e, principalmente, a partir do seu Doutorado, da Epistemologia da Complexidade de Edgar Morin. São muitas matrizes conceituais, mas que Rudimar fez confluir para uma visão bem focalizada e aplicada ao estudo da comunicação nas/das organizações. A Semiótica e a Análise do Discurso foram aplicadas à compreensão de como os sentidos se formam e são estrategicamente construídos e como circulam nos ambientes organizacionais e midiáticos. O paradigma da complexidade, por sua vez, tornou-se a principal lente epistemológica de seus trabalhos, rompendo, com isso, com visões lineares e transmissivas da comunicação e entendendo a organização como um sistema de interdependências e processos dialógico-recursivos.

Toda essa incorporação teórica o fez propor e operacionalizar alguns conceitos norteadores. Destaco, em primeiro lugar, a formulação conceitual básica que entende a comunicação organizacional como construção e disputa de sentidos no âmbito das organizações. Em segundo, uma sofisticada abordagem da imagem organizacional sob três enfoques: imagem físico-visível, imagem-linguagem e imagem-conceito. Em terceiro, aquela que provavelmente se tornou uma síntese da recursividade complexa do processo de comunicação nas/das organizações em três dimensões: a organização falada, a comunicada e a comunicante, que todos nós gostamos de citar. Essa visão é mais do que pode parecer no jogo de palavras. Ela muda a ótica e a lógica de compreensão da comunicação, não mais vista pelo seu papel funcional, principalmente o de disseminadora de informações, mas pelo conjunto de relações que estabelece. Isso enriqueceu a abordagem do campo e trouxe um conjunto de questões infinitamente mais amplo para as investigações.

Essa trajetória, sem dúvida, o posiciona como uma importante liderança intelectual no campo da comunicação organizacional no Brasil, que se reflete no compromisso que tem com a pesquisa, na quantidade e qualidade dos trabalhos que publica, na admiração de seus alunos e orientandos. Os trabalhos que orienta possuem, certamente, uma marca própria, vários deles laureados. É bom assinalar que sua própria tese, “Imagem-conceito: anterior à comunicação, um lugar de significação”, defendida na PUCRS, recebeu o prêmio de melhor tese na categoria Relações Públicas e Comunicação Organizacional da Intercom, em 2005.

Rudimar tem-se dedicado às mais variadas temáticas, que incluem também a área do Turismo. Tanto naquela área como na Comunicação, embora haja uma grande variedade de objetos, há muitos anos introduziu suas ideias quanto aos discursos de sustentabilidade, que irrigaram diversas pesquisas e se desdobram até hoje. Mais recentemente, tem-se voltado também à circulação de sentidos sobre diversidade, equidade e inclusão no discurso organizacional. Estes e outros assuntos confluem todos nas discussões do Grupo de Pesquisa em Comunicação Organizacional, Cultura e Relações de Poder – GCCOP, da UFRGS, sob sua liderança, nosso parceiro do Grupo IPÊ/UFMG na Rede Hologramas (Rede de estudos em Comunicação, Organizações e Públicos na Perspectiva da Complexidade).

É desta forma que tenho acompanhado todo este tempo a sua carreira, desfrutando de uma parceria constante e de uma interlocução produtiva. Para além, está uma amizade que se estende a longas e etílicas conversas, de mineiro e gaúcho, mas à sombra dos ancestrais italianos. É nesta junção feliz dos destinos que também pude, felizmente, conhecer outro lado, que se soma ao acadêmico com igual valor: o de artista plástico e ceramista. Da colônia na Serra Gaúcha à academia e ao mundo, brindo igualmente à sua inteligência e sensibilidade.

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