Antes, durante e pós-dissertação: compreensões acerca da complexidade do impacto da obra do Racionais MC’s
Maria Fernanda de OLIVEIRA-RUAS
No dia 7 de fevereiro de 2025, tive a alegria de defender minha dissertação, que, após noites pensando em possíveis títulos, reuniões de orientação e uma banca de qualificação (muito generosa, por sinal), foi intitulada “SOMOS O QUE SOMOS, CORES E VALORES: a apropriação do território periférico como contra-dispositivo de racialidade, na obra do Racionais MC’s”, que desenvolvi entre os anos de 2023 e 2025 sob a orientação do professor Márcio Simeone Henriques.
Acredito que, até aqui, esse foi o trabalho que julgo de maior relevância na minha humilde carreira científica. Não digo isso por ele representar um trabalho grandioso, premiado ou digno de ser uma leitura indispensável. Não, longe disso. Digo isso, porque, durante a dissertação, eu aprendi a me escolher enquanto uma mulher negra com todos os atravessamentos que compõem o meu corpo e, também, a minha história. Aprendi a pensar com mais carinho nos meus limites, entendi que, às vezes, a gente, enquanto pessoa pesquisadora que constitui o grupo de pessoas em destaque, frente ao diálogo/observação/encontro, na pesquisa, precisa ver o sol brilhar, precisa ver a potencialidade transformadora da nossa gente. Precisamos, sim, descansar da dor, do extrativismo sanguinário que, muitas vezes, interessa mais à Academia do que a grande revolução que é ser feliz, existir com paixão, com alegria e vontade.
Uma vez, ainda na graduação, me lembro de participar de um evento virtual do PPGCOM no qual a professora Sônia Pessoa nos convidava a pensar sobre como nossas pesquisas, inevitavelmente, dizem de assuntos que nos afetam. Era pandemia e, na época, eu, imersa nas leituras sobre campo não-hermenêutico, produção de presença e estética, para o professor Hans Ulrich Gumbrecht – que nos foi apresentado pelo professor Rennan Mafra –, entendi que caminhava academicamente para um lugar que me fazia muito sentido.
Ali, eu estudava a comunicação organizacional do estado do Rio de Janeiro, frente ao assassinato do menino João Pedro[1]. Me lembro de me pegar chorando vislumbrando objetos em potencial, narrativas que me possibilitariam tecer um diálogo rico e, em muitos contextos, duro, crítico, combativo. Algum tempo depois, eu trabalhei com as narrativas tecidas pelo telejornal Fantástico sobre o caso Miguel[2], a partir das falas de Mirtes, sua mãe. Durante aquele ano, me lembro que eu vivia crises de ansiedade que bloqueavam minha escrita por dias. Eu tinha medo da pesquisa, me via na cena de Mirtes encontrando seu filho atirado no chão: poderia ser eu, poderia ser o meu irmão, um primo, um amigo… Poderia ser eu – e, em algum lugar, também era.
Obviamente, a escolha de orientar uma estudante negra com anseios que me moviam para x ou y lugar demanda certa sensibilidade das pessoas que me orientam e, nesse sentido, até o momento, minha expectativa sempre foi suprida. Ainda que na discordância, nunca tive grandes problemas com isso, mas reconheço que minha experiência diz de mim e só de mim. Digo isso porque sei que eu escolhi lidar com a dor, escolhi olhar para a necropolítica que se dá nas minúcias cotidianas – se é que grupos minorizados podem escolher com alguma liberdade o que estudar, se é que somos ensinados a olhar com carinho para as nossas dores e humanidade, se é que somos incentivados a existir para além de determinado marcador.
Durante a reescrita do projeto de dissertação, já no mestrado, com alguma certeza de que eu continuaria pensando em violência policial, em outros contextos, tirei uma tarde de domingo para assistir o documentário “Das ruas de São Paulo pro Mundo”, dirigido pela Juliana Vicente, e, naquele momento, eu soube que aquela era a dose de fé que eu precisava para continuar pensando as negritudes como posições ativas.
Eu sabia disso, mas eu me esqueci. Havia me esquecido do quanto, apesar de toda uma complexidade sistêmica que trabalha para o meu extermínio, eu também resisti. Do quanto eu vejo a resistência todos os dias, quando recebo um sorriso das pessoas negras em situação de rua; da resistência presente em pessoas negras de religiões de matriz africana que celebram sua fé com orgulho e festa; me esqueci da potencialidade do rap na construção de identidades periféricas negras. Eu me esqueci não por não ver mais sentido. Mas, no meu horizonte, eu estava tão afogada na importância de discutir o massacre, que perdi de vista os meios de viver apesar dele.
Eu costumo dizer à minha terapeuta que, no contexto da análise, eu reconheço que preciso de tempo para que as intervenções propostas ali apareçam com alguma aplicabilidade, no meu cotidiano, preciso ensaiar as ferramentas para chegar em determinados lugares e isso me faz quem eu sou – eu sou alguém que gosta de entender, que precisa se sentir segura e inteira nas minhas tomadas de decisão. Na orientação, não foi diferente. Frente à esse estalo proposto pelo documentário, me lembrei que, em uma orientação, o professor Márcio me alertou sobre a necessidade de ter estômago para seguir para onde estávamos indo, porque lidaríamos com conteúdos violentos, sensíveis e, em certa medida, esgotantes (ainda que aparentemente nunca esgotados). Frente à essa lembrança, que me veio como um abraço, eu entendi que eu já não tinha estômago. Estava cansada.
A partir disso, optamos por observar o documentário, na tentativa de compreender como, ao se apropriar do território periférico, o trabalho do grupo Racionais MC’s mobiliza um contra-dispositivo – conceito que pegamos emprestado da professora Pâmela Guimarães-Silva – que incita movimentos que disputam com a ação do dispositivo de racialidade, termos desenvolvido pela intelectual Sueli Carneiro. Em outras palavras, buscamos pensar como rappers marcadamente negros e de periferias subvertem a norma racista estabelecida pela colonialidade, a partir do seu trabalho e mobilização de públicos.
Eu entendo que a vivência acadêmica pode ser muito dolorosa e difícil para muitas pessoas que compõem grupos minorizados e entendo, mesmo, quando se afastar dele se mostra como o único caminho possível de existir, mas, no meu caso (falando de mim que sou tão pouco, mas, ao mesmo tempo, sou tudo o que eu posso querer), olhando daqui, um ano e três meses após a defesa da dissertação, eu só consigo pensar no quão o processo de escrita me permitiu curar feridas e mágoas que trazia comigo, na minha relação com o Mundo e com a Academia. Existir de verdade, com inteireza, é um movimento revolucionário para os grupos com que trabalhamos e tal condição só se dá frente ao cerceamento de direitos básicos – que, obviamente, perpassam a saúde, a educação, moradia etc., mas não só nesse lugar. Aprendi, nesses anos de leituras, observações e experiências, que existe um sistema moderno-colonial que conspira (e trabalha muito) para que toda e qualquer existência que não performe determinada corporeidade social-econômica fracasse. E esse fracasso ele toma formas, ele é situado. Ele se estabelece de acordo com vivências e garante que nunca sejamos suficientes para viver a vida que julgamos digna, porque o desejo é, por si só, relacional. Aprendemos a querer ter mais dinheiro, porque alguém tem mais dinheiro e vive os privilégios disso. Aprendemos a querer viver a felicidade, porque, na tristeza, percebemos que um alguém-outro é feliz. Aprendemos a ansiar por melhores condições de existir, porque, em algum lugar, isso nos é negado. E é justamente frente ao feito de denunciar o óbvio (tantas vezes camuflado na complexidade cotidiana) e de experienciar o dito impossível, que o Racionais promove transformação social.
Durante a pesquisa, entendemos o grupo como um contra-dispositivo que enfrenta o dispositivo de racialidade ao afirmar sua humanidade, a identidade e a potência da população negra e periférica. Falar do Racionais MC’s, corriqueiramente, é falar de quatro homens negros, pobres, letrados, politizados e de periferias. E eles são tudo isso… Hoje. Em nosso trabalho, nos esforçamos em marcar a grandiosidade do grupo, que só se dá porque esses sujeitos já foram meninos, adolescentes, se transformaram, erraram (principalmente, com as mulheres negras que os cercam), mudaram de ideia… Compreender suas existências como complexas, humanas e, consequentemente, instáveis é denunciar a “teia de falha” proposta para suas subjetividades, diante de um sistema que só autorizam suas vidas junto à sujeição. Eles fogem disso e tentamos acompanhá-los, ainda que com os limites das nossas vistas. Nas pontas dos pés, observando vidas criadas em São Paulo, daqui, da capital mineira, entendemos que o trabalho do grupo transforma a periferia em espaço de produção de conhecimento, afeto, beleza e esperança. Entendemos que, em termos de disputa, o Racionais não busca combater o racismo a partir da forma que ele foi construído, junto aos que o construíram. Eles não se colocam enquanto sujeitos que buscam “evangelizar” a branquitude ou convencer alguém da perversidade disso. Quando refletimos sobre a habilidade de disputa com narrativas que reduzem esses territórios apenas à violência e à precariedade, nos referimos, principalmente, às disputas internas que se dão nas periferias brasileiras, ao chacoalho (ou emancipação, a quem preferir) que ele promove às existências afetadas negativamente pelo racismo, que atua como parte fundamental e fundamentante deste país.
A potência revolucionária de todo esse movimento pode ser nomeada como poder educativo, consciência racial, de classe, releitura histórica, fabulação crítica (como o fizemos, com base no que explica a professora Saidiya Hartman) ou com qualquer outra nomenclatura que combine termos que façam sentido frente a tamanha trajetória, mas, para esse texto, nesse aqui-agora, com as condições e impulsos que tenho para escrevê-lo, me atrevo a chamar essa complexidade de ações e impactos na periferia, e além de dela, de Escurecimento Racionais. Temos um movimento que dá evidência à potencialidade do que é ser negro no Brasil, à importância de se perceber assim nas leituras micro e macro sociais. Temos recursos que surgem, a partir das margens, para pensar políticas públicas educacionais, de segurança pública, planos de enfrentamento à fome e à pobreza. Material produzido pelas periferias que, junto ao Racionais, se levanta, diz de si, produz seus dados e dá o tom: cada vez mais negro.
[1] João Pedro Pinto Mattos foi um adolescente negro de 14 anos, morto em maio de 2020 durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ). Seu caso ganhou ampla repercussão, tornando-se símbolo da violência de Estado direcionada às juventudes negras e periféricas no Brasil. Sobre o caso, já escrevemos anteriormente, discutindo as articulações entre racismo, necropolítica e territorialidade nas dinâmicas de produção da morte nas periferias urbanas. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1qMASrKed_GYZmoYvjDqomOzxPzN5RdjY/view. Acesso em 13 maio 2026.
[2] Mirtes Renata de Souza Santana é um nome reconhecido na denúncia das desigualdades raciais, de classe e de gênero no Brasil, após a morte de seu filho, Miguel Otávio, de 10 anos, em junho de 2020, no Recife (PE). Na ocasião, a advogada atuava como trabalhadora doméstica, em contexto pandêmico, quando precisou deixar sua criança aos breves cuidados da sua, na época, patroa, Sari Corte Real. A contratante permitiu que a criança acessasse o oitavo andar do prédio, possibilitando sua queda e, consequentemente, óbito. Acesso em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2025/09/28/negritudes-mirtes-santana-mae-de-miguel-fala-sobre-luta-por-justica-e-transformacao-de-dor-em-estudo.ghtml. Acesso em 13 maio 2026.