Os segredos na configuração do público e do privado

Márcio Simeone HENRIQUES

Designer (3)

Todos temos segredos, e isso é bom. São as sombras que nos protegem do excesso de luz. Guardamos na alma aquilo que ninguém mais pode tocar. Sem segredos, seríamos apenas transparência, vazia e incomunicável, o mesmo que a luz sem as sombras, sem confronto nem graça. Não haveria drama, romance, tragédias ou comédias. São os segredos que tecem as tramas, criam suspense e tensão. São a essência do enredo pois, sem mistérios, não há histórias que valham a pena contar.

E o segredo tem lá sua função psicossocial: é um dos elementos reguladores da dinâmica público/privado na sociedade e um balizador das nossas individualidades. Lembro do alerta de Hannah Arendt em “A condição humana” [1]: a gente não aguenta viver com tudo exposto o tempo todo. a vida humana digna exige um espaço privado onde não estamos constantemente sob o escrutínio público, pois é nesse refúgio que cultivamos nossas relações mais autênticas e nossa subjetividade. Se tudo fosse exposto à luz pública, perderíamos justamente aquilo que nos torna humanos: a capacidade de ser diferentes em distintos contextos, de ter pensamentos que não precisam ser justificados ou expostos. Na mesma direção, Georg Simmel [2] fala basicamente a mesma coisa, ao traçar uma sociologia do segredo: um indivíduo só é livre quando consegue guardar certas coisas para si. Se a alma inteira fosse forçada a se mostrar, se não tivéssemos o direito de ter pensamentos só nossos, perderíamos toda a nossa individualidade e estaríamos sempre sob controle. A capacidade de ser diferente em cada lugar, só existe porque conseguimos ocultar partes de nós mesmos. Um mundo onde nada é secreto, onde tudo é público e exposto, seria, portanto, um enorme pesadelo.

Simmel mostra que o segredo não é apenas uma informação escondida, mas uma forma fundamental de relação social e de construção da realidade. Para ele, não é anomalia, mas parte constitutiva da vida social, ligado à maneira como as pessoas constroem as suas identidades, os seus relacionamentos e também as estruturas de poder. Há, porém, uma tensão inescapável entre as demandas por transparência e a necessidade do segredo para preservar a autonomia. É justamente essa tensão que se mostra produtiva, pois gera dinâmicas sociais baseadas no par dialógico confiança/desconfiança. É uma visão construtiva, portanto, que se dá na ação, e não apenas na informação.

De um ponto de vista praxeológico, os segredos pertencem ao cotidiano das interações. O que eles ocultam é aquilo que se é e/ou algo que se faz, de modo imbricado. É ação e identidade, que não se querem reveladas. Uma ação secreta se organiza por uma coordenação prática de encobrimento, numa conduta sigilosa por ele condicionada, sempre sujeita a riscos. Uma vez revelada, essa ação diz de quem a praticou – vale dizer, o rotula e classifica socialmente. Quem comete o crime não deseja apenas ocultar a ação criminosa, mas quer evitar ser taxado de criminoso.

Diríamos, então, que os segredos são algo que se conduz pela exigência de não ser visto, portanto, não ser conhecido (ou reconhecido). Mais para além disso, eles fazem fazer e fazem falar! Interagentes se empenham na sua produção e manutenção, fabricam silêncios e protegem informações, criam modos de ocultar e revelar; portanto, ativamente criam e convocam os segredos, como também os transacionam e os incorporam às relações. No pragmatismo de Erving Goffman [3] [4], o segredo é fundamentalmente uma ferramenta dramatúrgica de controle de imagem, pois as pessoas o usam para gerenciar a percepção que os outros têm delas. Sua visão metafórica aqui é que, na vida social, funcionamos como uma equipe em cena, precisando cooperar para manter uma fachada convincente diante da plateia. Nesse jogo de representações, o segredo cumpre papéis distintos: protege a equipe (o que chama de segredos escuros), oferece vantagens estratégicas (segredos estratégicos) e reforça a identidade do grupo (segredos internos). Mas o segredo vai além de simplesmente ocultar; ele é uma prática performática que organiza as relações sociais, define os limites do que pode ou não ser compartilhado, marca quem pertence e quem fica de fora. Seu sucesso depende inteiramente da cooperação mútua e da capacidade de todos em manter uma aparência coerente.

O segredo sustenta, assim, a própria ordem da interação social. E ordem, aqui, significa um conjunto de expectativas compartilhadas que regulam o que cada um pode ver, saber e dizer sobre os outros, numa espécie de acordo tácito de que nem tudo pode e deve ser acessível a todos o tempo todo. Em “Relations in Public” [4], Goffman mostra que essa ordem depende de fronteiras informacionais que as pessoas aprendem a respeitar: o que chama de “reserva de informação” é o direito de controlar o que os outros sabem sobre si. Assim, o segredo não deve ser visto como uma exceção à vida pública, mas uma condição dela: é porque existem zonas de opacidade mútua que a convivência se torna possível, e é justamente quando essas fronteiras são quebradas que a ordem da interação se desestabiliza.

Sob uma visão praxeológica, então, em vez de nos perguntarmos o que o segredo é, nossa indagação se volta mais para “o que o segredo faz”. Vermeir e Margócsy [5], seguindo a tradicional e mais que centenária abordagem de Simmel, apontam a importância de vermos o segredo como prática social dinâmica, com força de coesão grupal, que produz relações de hierarquia e inclusão-exclusão. E lembram que segredos (científicos, no caso de sua reflexão) podem ser usados como tática para manipular as crenças de competidores e dos públicos. De forma expandida a qualquer caso, vemos que isso nos interessa bem de perto nas práticas de relações públicas.

Do segredo individual ao sigilo organizado: os custos morais e sociais do secretismo

Eu sei e qualquer um sabe: guardar segredo não é nada fácil. Ele praticamente pede para ser revelado! Guardá-lo tem um custo pessoal que pode ser a qualquer momento cobrado. Envolve questões de consciência e, em alguns casos, dilemas morais radicais. Quando o fato de guardar o segredo, nosso ou de outrem, se torna penoso demais, irá causar danos e a sua revelação pode ao menos trazer-nos alívio e conforto. Por isso temos vários impulsos para compartilhá-lo com alguém. Para isso servem os melhores amigos, aqueles que elegemos como confidentes, não é? Mas isso é um movimento contínuo. Se somos confidentes e recebemos em confiança um segredo, alimentamos esse ciclo. Notem que esse movimento é centrífugo e tentamos aplicar, inversamente, uma força centrípeta para equilibrar. Quando essa força que aplicamos não chega a ser suficiente, o sigilo se desestabiliza.

Explicando melhor, aquilo que nos é confiado como um segredo envolve, em princípio, uma obrigação moral. Envolve um código de sigilo, cuja ruptura leva a consequências morais, já que ele se compõe principalmente de relações intersubjetivas de confiança e impõe uma lealdade. Mas também anoto que é preciso reconhecer os custos de todo segredo para quem o detém. Nossas tendências orgânicas ao compartilhamento são forças que lutam contra uma informação que não pode circular, impondo-nos uma vigilância constante sobre as próprias palavras e até mesmo um desgaste dos vínculos mais espontâneos, em tensão permanente com a lealdade devida neste processo.

Mas os segredos não são protegidos só por promessas e obrigações de não contar. As pessoas que compartilham um segredo tendem a desenvolver uma linguagem só delas para falar sobre o assunto: usam palavras estranhas, eufemismos, meias-palavras, gírias que só quem está dentro de um círculo específico entende. Quanto mais importante é o segredo, mais a linguagem fica cifrada e estranha para os de fora. No extremo, isso vira criptografia, que são códigos matemáticos complexos que transformam a mensagem em algo incompreensível. Andrea Sgarro, em “Códigos Secretos” [6] mostra que proteger um segredo não depende só da lealdade de quem sabe. Depende também de técnicas que tornam a mensagem impossível de ler se você não tiver a chave certa. A criptografia, nesse sentido, é como se transformássemos a confiança em um dispositivo técnico: em vez de contar só com a promessa de alguém não contar nada, usamos um código que garante que mesmo se a mensagem for interceptada, ninguém consegue entender o que está escrito, a menos que obtenha a chave de decifração. Então, funciona assim: existe um código moral que diz quem pode saber do segredo, e existe um código técnico que diz o que pode ser lido. Os dois trabalham juntos; quanto maior a exigência de confidencialidade, mais se desenvolve um código bem específico e protegido para a informação a ser resguardada.

Os códigos morais do secretismo, em si, também possuem uma gradação, que pode exigir pactos cada vez mais aprimorados. Principalmente se envolver grande quantidade de pessoas. Se, apenas entre dois indivíduos, já temos um código complexo e de alto custo, mais ainda teremos quando o segredo alcança um nível coletivo. Basta ver como funcionam as sociedades secretas: nelas, os segredos precisam ser de algum modo ritualizados, dependem de uma estrutura, composta de vínculos extremamente fortes de lealdade para mantê-los. Uma elite de iniciados, que podem ter acesso a um conjunto de segredos, requer firmar um pacto de honra. Sistemas de lealdade muito fortes e intrincados também são requeridos para grupos que se dedicam a práticas ilícitas, que precisam investir numa estrutura comunicativa própria e resguardada como forma de autoproteção. Nestes casos, além de uma coerção moral, pode vir a operar um código de violência, o que leva o pacto a um outro patamar, onde o preço a pagar é o da própria vida. Assim também, práticas de corrupção só conseguem se manter porque existe uma rede de pessoas ligadas por lealdades e ameaças que trabalham ativamente para escondê-la. O segredo não é apenas um apelo para que participantes fiquem calados, mas funciona como um mecanismo que deliberadamente mantém tudo longe dos olhos de quem poderia denunciar. Portanto, podemos dizer que é um sistema organizado de ocultamento.

Sou fascinado pelos fenômenos de opinião pública e há muito tenho estudado sobre silêncios, segredos e vazamentos. Acabo de ler um livro, lançado recentemente, que me chamou a atenção. É a obra “Les sociétés du silence: L’invisibilité du crime organisé”, de Jean-François Gayraud [7]. Ele é criminólogo, com atuação na direção da Polícia Nacional da França e que estuda o crime organizado. Meu primeiro contato tinha sido com uma obra anterior, denominada “Le monde des mafias/Géopolitique du crime organisé” [8], o que então me despertou para sua autoridade epistêmica no assunto. Neste último livro, ele traz melhores subsídios sobre o complexo mecanismo enovelado composto de silêncio, ocultamento, esquecimento e invisibilidade. Antes de chegar à realidade francesa atual, Gayraud examina as quatro grandes máfias italianas (Cosa Nostra, ‘Ndrangheta, Camorra e Sacra Corona Unita), analisando como elas desenvolveram estrategicamente todo um conjunto de técnicas de ocultação, de infiltração institucional e até mesmo de invisibilidade política. Assim, aquilo que estamos chamando de um sistema organizado de ocultamento, à medida que as atividades ilícitas se expandem e exigem cada vez mais restrições à exposição pública, passam a níveis bem mais sofisticados em que é preciso envolver mais ativamente as instituições que têm como função fiscalizar, investigar e punir. Isso explica por que autoridades vão sendo constrangidas, ameaçadas ou cooptadas. A infiltração institucional se alarga e, com isso, expande o escopo das práticas ilegais, aumentando mais ainda o custo dos segredos, numa verdadeira bola de neve.

Sendo assim, temos um bom ponto de reflexão: guardar um segredo já custa caro para quem o carrega; mas quando ele deixa de ser um acordo entre poucas pessoas e vira um sistema de ocultamento organizado, o custo cai nas costas da sociedade inteira. O que começa como uma simples promessa de lealdade pode se converter em linguagem codificada, num pacto de honra, e mesmo numa máquina de violência, cooptação e silêncio que, no mínimo, perturba as instituições e, no máximo, as corrói. Quando é assim, o segredo deixa de ser um problema moral individual e vira um problema político: quanto mais escondida a estrutura, mais difícil é responsabilizá-la, e mais a sociedade sofre por isso.

A quebra do silêncio e a revelação

Acho conveniente a esta altura fazer uma distinção entre segredo e silêncio, considerando-os fenômenos distintos, embora frequentemente se confundam. O silêncio é uma ausência de fala, um estado da própria expressão. E se dá de várias formas: calar-se, não responder, evitar um assunto. Ele interfere no curso da própria interação e também pode ter vários significados, tais como medo, desdém, respeito etc. Eu diria que é um regulador da conversação em si, de modo imediato. Nos estudos de opinião, ele tem um estatuto muito importante, quando vemos o silêncio e os silenciamentos como um fenômeno coletivo. Eu e Laura Pimenta [9], por exemplo, tratamos disso como um fator básico de negacionismo, baseados na ideia de Eviatar Zerubavel das “conspirações de silêncio”, situações em que todos sabem de algo, mas ninguém fala sobre isso, numa espécie de pacto. Na sua obra “O Elefante na Sala” [10], Zerubavel afirma mesmo a ideia de que o silêncio é uma forma de negação. A leitura de Goffmann [3] [4], que, aliás, é o grande inspirador de Zerubavel, nos dá também uma  pista de que o silêncio é uma das formas comunicativas do não-dizer.

Se assim é, vemos que a fronteira entre silêncio e segredo não é convencionalmente nítida, tal a sua imbricação lógica e o uso coloquial que por vezes não os distingue. Porém, de modo menos conceitual que operacional, prefiro pensar que o segredo, sendo informação que oculta uma identidade ou ação, é uma estrutura de organização, configuração e controle da relação social, enquanto o silêncio, sendo um modo de expressão do não-dizer, é um dos recursos para proteção do segredo. Pensar assim tem várias consequências práticas, mas destaco ao menos uma, a de que o silêncio condiciona o segredo, definindo suas fronteiras e sustentando as relações de confiança e poder que o cercam. 

E o que acontece quando o silêncio é rompido? Seguindo o raciocínio, quando isso acontece, o segredo que ele protege estará, obviamente, aberto. Simples, não é? Mais ou menos, isso é só o fator básico. As formas de revelação são muitas e atualmente podem até merecer um chá para os amigos e/ou família. O impacto também pode variar enormemente, a depender da temporalidade (a sua duração no tempo), da tempestividade da revelação, da extensão da afetação de outrem, dos elementos de surpresa envolvidos (o flagrante, por exemplo), da gravidade moral etc. Podemos aqui examinar brevemente pelo menos três modalidades de revelação: a confissão, a inconfidência e o vazamento. Ainda que todas as três tenham impacto público, seu ponto de partida em termos de motivação e iniciativa é diferente, sendo a confissão de caráter mais individual e íntimo, sendo que as demais precisam do concurso de mais agentes no próprio processo de revelação.

Então, vejamos. Santo Agostinho, nas “Confissões” [11], explana que, ao confessarmos as nossas faltas a Deus, não apenas tiramos algo de dentro para fora, mas mudamos o próprio estatuto do segredo, reorganizando-o. Se Deus tudo vê, a confissão não revela uma informação nova, mas estabelece uma nova relação com o que estava sendo ocultado. Para fora do aspecto teológico aqui implicado, este raciocínio pode ser interessante para examinarmos a confissão como um ato autônomo de revelação de algo para os outros, ou seja, ao confessar, o sujeito não apenas revela um conteúdo; ele produz uma nova fronteira entre o que foi dito e o que permanece não-dito, e é essa fronteira que passa a organizar a relação com quem ouve essa confissão. Este aspecto comunicacional é ressaltado por Foucault. Ele define a confissão como um ritual discursivo que ocorre em relações de poder: quem confessa fala, mas quem ouve ocupa a posição de julgar, perdoar ou punir. Isso quer dizer que a confissão não é só uma revelação, mas uma ação que altera o estatuto do sujeito falante diante do(s) outro(s). O segredo, ao ser confessado, sai do controle exclusivo de quem o detinha e passa a circular em uma relação, onde o ouvinte adquire poder sobre ele.

Mas é possível ver neste ato muitas nuances. A confissão, quanto mais restrita ela for, menos elimina o segredo em si, ou seja, ele pode apenas estar sendo compartilhado, por exemplo, com uma só pessoa, permanecendo oculto entre elas. É diferente, portanto, de quando a confissão é publicamente exposta, ou seja, quando a informação se torna disponível largamente a qualquer outra pessoa, quando, então, deixa de ser secreta. Ainda assim, essa revelação ampla pode não conter todos os elementos que se tratou de ocultar e, mesmo que bem sincera e extensiva, pode deslocar a ocultação para outros aspectos. Ou seja, uma revelação nunca será total e absoluta (de forma equivalente, diríamos que o segredo não é totalmente destruído por uma confissão). Esta modalidade, portanto, pode ter graus com impactos bem diferentes. Mas, de qualquer maneira, a confissão, como reconhecimento, reconfigura as nossas relações privadas, tanto quanto podem, com a participação das outras modalidades, alterar nossa subjetividade e reconfigurar as nossas relações em público.

Mas há outro aspecto a considerar. Em princípio, a confissão se dá de modo voluntário e autônomo: a pessoa decide, por livre vontade, revelar o que sabia ou guardava, sem sofrer pressão física ou psicológica. Na prática, porém, essa liberdade é frágil. A confissão pode ser arrancada por meios coercitivos, como tortura, pressão psicológica ou promessas de benefícios, o que destrói sua voluntariedade e a transforma em uma revelação forçada, imposta contra a vontade real da pessoa. Essa distinção nem sempre fica muito nítida, mas sempre tem consequências jurídicas e morais: uma confissão extraída sob coação é considerada juridicamente ilícita e não pode ser validamente utilizada como prova. Uma confissão arrancada à força que possa envolver e prejudicar terceiros, por exemplo, traz um enorme peso moral a quem confessa, por ter traído alguém ou por ter exposto informações que não deveria, mesmo sabendo que agiu sob coação. Aqui está em jogo o código da lealdade devida ao segredo e a própria integridade e sobrevivência de quem o guarda. E pode ser que não saibamos ao certo em que condições de autonomia e voluntariedade essa auto-revelação se deu.

A segunda modalidade é a da inconfidência. Ela se distingue da confissão porque não parte de quem originariamente guarda o segredo, mas de alguém que o recebeu em confiança, ou seja, ela só é possível na condição de um segredo já partilhado. Quem revela um segredo quebra a confiança e a lealdade com as pessoas que o compartilhavam, aquelas que eram corresponsáveis por guardá-lo. Ao contar a terceiros aquilo que lhe foi confiado em sigilo, comete mais que uma simples divulgação: destrói a relação de confiança que permitiu o segredo existir, ferindo diretamente todos os que faziam parte desse grupo. Goffman [3] observa isso como uma traição àquela situação definida que é mantida pela performance de um grupo, em conjunto. Em termos de comunicação, uma revelação não autorizada tira o segredo de um círculo fechado e presumidamente confiável, jogando-o em circulação aberta, violando o acordo e o código silencioso que mantinha aquele vínculo. A traição, portanto, não se dá só sobre o conteúdo revelado, mas atua sobre o pacto que unia aquelas pessoas.

Simmel [2] aponta que o segredo compartilhado contém em si mesmo o risco de ser rompido e que essa ruptura assume a forma de gossip (fofoca) ou confession (confissão). Prefiro tratar dessa modalidade de forma distinta da autorrevelação que se dá na confissão, por perceber nela características peculiares e com impacto e consequências públicas que podem ser um pouco diferentes e sem nomeá-la simplesmente como fofoca. A fofoca é, sem dúvida, uma forma de inconfidência, mas pode ter significados bem diferentes, inclusive um sentido pejorativo. Ela é trivial, mas quando ultrapassa esse limiar vira uma exposição indevida da vida alheia, podendo causar danos morais [12]. Em nossa língua, ela pode assumir até um significado de boato. Isso sugere que uma informação revelada pode ser falsa ou não verificável, o que torna ainda mais complexa a questão dos segredos, mas que vamos deixar aqui à parte do raciocínio neste texto. Mas vale o registro.

A terceira modalidade, afinal, é a do vazamento. E é clássica. Esta se distingue por sua direção e por sua relação inequívoca com a esfera pública. Ele ocorre quando alguém que detém ou tem acesso ao segredo, seja por função, cargo ou posição, o divulga para fora do círculo autorizado, frequentemente para a imprensa ou diretamente para o público, sem a anuência de quem o confiou. Busca expor a informação a uma audiência mais ampla, muitas vezes com o objetivo de mostrar algo que se considera errado ou de exercer pressão sobre alguém ou sobre instituições. O crivo aqui, está no interesse público que este segredo pode suscitar, como aponta Sissela Bok [12]. Ela dedica um capítulo específico de seu livro a “Whistleblowing and Leaking”, tratando-os como formas de revelação que envolvem conflitos entre lealdade organizacional e interesse público.

O vazamento não necessariamente trai um pacto entre iguais; ele rompe a barreira que separa o círculo interno , o de quem sabe, do círculo externo, de quem não deveria saber, mas faz isso a partir de uma posição de acesso privilegiado a algo que seja confidencial. Em termos práticos, o vazador (informante) pode ser alguém que nunca fez um pacto explícito de sigilo com os demais portadores, mas que, por sua função, teve contato com a informação e decide expô-la por alguma razão. Ressalvo, como podem ver, que trato aqui do vazamento como uma dinâmica que se dá por dentro de instituições ou que as envolve diretamente. Ele é, muitas vezes, uma ruptura com a própria instituição ou com a autoridade ou grupo que controlava alguma informação sigilosa. Essa ação pode ser movida por dever cívico, por indignação ou por interesses, mas que se endereça a quem possa expor aquilo ao público ou à opinião pública, como a imprensa [13]. Cary Greenwood [14] aborda de modo interessante o vazamento como uma resposta adaptativa de sobrevivência moral diante de um ambiente organizacional corrupto, no qual o indivíduo calcula, ainda que intuitivamente, os custos e benefícios de falar ou calar.

É de se reconhecer que um vazamento pode ocorrer por descuido ou negligência, numa falha de proteção de quem deveria guardá-lo, mas pode ser buscado ativamente numa prática de hacking, valendo-se de técnicas de intrusão que visam obter, de forma ilegítima, dados e informações sigilosas para posterior divulgação. Mas quem quer que detenha uma informação que seja privilegiada, pode querer obter vantagens com ela, para interesses políticos ou comerciais ou mesmo por mera vaidade pessoal ou exibicionismo. Quando tem um caráter de denúncia, no entanto, ele pressupõe justificativas cívicas ou morais; o vazador age porque considera que a informação revela algo errado e que o público ou as autoridades precisam necessariamente saber. Sissela Bok [12] faz a diferenciação semântica, tratando o whistleblowing como uma categoria específica, distinta do vazamento em geral, justamente porque envolve dilemas e juízos morais sobre a necessidade de expor a informação em nome do interesse público.

Podemos dizer, de modo geral, que todo vazamento é processual, pois envolve um encadeamento de ações, relações e decisões que tornam a revelação possível. Ele nunca é um ato isolado e instantâneo, pois pressupõe um contexto que permitiu um acesso a uma informação sigilosa, uma decisão de romper aquele sigilo, um destinatário escolhido ou alcançado e efeitos sobre os públicos e a opinião pública que se desenrolam a partir dele. Mesmo que o vazamento seja acidental, ainda assim ele se insere em uma trama prévia de acessos, permissões e rotinas institucionais que tornaram a exposição possível e esse próprio acidente revela uma fragilidade estrutural (institucional)  [15]. Mesmo quando deriva de um único indivíduo, sem coordenação com outros, o vazamento mobiliza de toda forma uma rede de expectativas sobre a reação do(s) destinatário(s) e cálculos sobre riscos e consequências [12]. O vazamento, seja como for, abarca um conjunto de interações, menos ou mais coordenadas, e não se dá isolado, porque sempre está inscrito num histórico de vínculos, corresponsabilidades e em relações de poder [4]. 

***

Os segredos revelam-se, portanto, como fenômenos fundamentalmente comunicacionais que organizam não apenas nossas relações intersubjetivas, mas a própria estrutura da vida pública e da opinião pública. Do segredo individual que protege nossa autonomia e subjetividade ao sigilo organizado que corrói instituições e a confiança social, a dinâmica entre ocultamento e revelação define os limites do que pode ser dito, sabido e julgado pela sociedade. As três modalidades de ruptura nos mostram que essa dimensão comunicacional nunca é neutra, porque reposiciona atores sociais e reconstrói relações de poder. Compreender os segredos nesta perspectiva é uma boa proposta de agenda de pesquisa no campo da comunicação, em geral, e nas áreas de opinião pública e relações públicas, em particular, porque permite reconhecer que a visibilidade e a invisibilidade são condições ativas e negociadas e a vigilância constante dos públicos é um requisito para compreender e interpretar tanto o que é revelado quanto o que permanece estrategicamente oculto.

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Notas:

[1] ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

[2] SIMMEL, Georg. The Sociology of Secrecy and of Secret Societies. American Journal of Sociology, Chicago, v. 11, n. 4, p. 441-498, 1906.

[3] GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1985.

[4] GOFFMAN, Erving. Relations in public: microstudies of the public order. New York: Harper & Row, 1971.

[5] VERMEIR, Koen; MARGÓCSY, Dániel. States of secrecy: an introduction. The British Journal for the History of Science, v.45, n.2, p.153-164, 2012.

[6] SGARRO, Andrea. Códigos secretos. São Paulo: Melhoramentos, 1994.

[7] GAYRAUD, Jean-François. Les sociétés du silence: l’invisibilité du crime organisé. Paris: Fayard, 2025.

[8] GAYRAUD, Jean-François. Le monde des mafias: géopolitique du crime organisé. Paris: Odile Jacob, 2005.

[9] Docente da Universidade Federal de Alagoas e membro do Grupo de Pesquisa IPÊ.

[10] ZERUBAVEL, Eviatar. The elephant in the room: silence and denial in everyday life. Oxford: Oxford University Press, 2006.

[11] AGOSTINHO, Santo. Confissões. 28. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2015.

[12] BOK, Sissela. Secrets: On the Ethics of Concealment and Revelation. New York: Pantheon Books, 1982.

[13] Não pretendo explorar aqui detalhes e meandros da lógica dos vazamentos, que é bem mais complexa. Ressalvo que o vazamento pode ocorrer de forma direta, sem a mediação da imprensa, quando o portador do segredo o divulga a um público específico por meios e canais próprios, mas, diferente de uma denúncia feita diretamente às autoridades e que pode não ser dada ao conhecimento público, o que nos interessa é tratar daquilo que vaza com o propósito de alcançar níveis de publicidade.

[14] GREENWOOD, Cary A. Public relations and whistleblowing: golden handcuffs in corporate wrongdoing. Abingdon, Oxon: Routledge, 2021.

[15] POZEN, David E. The Leaky Leviathan: Why the Government Condemns and Condones Unlawful Disclosures of Information. Harvard Law Review, Cambridge, v. 127, n. 2, p. 512-635, 2013.

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