Problemas perversos e comunicação: em busca da governabilidade

Ana Vitória Alkmim de SOUZA LIMA

Foto: Douglas Magno

Grande parte dos problemas socioambientais produzidos e enfrentados pela humanidade na era do Antropoceno, caracterizada pela significativa influência humana no planeta, pode ser classificada como problemas perversos, expressão proposta por Rittel e Weber nos anos 70, durante a crise do planejamento racional. Trata-se de questões complexas que envolvem vários atores e tomadores de decisão, cujos valores são conflitantes; há confusão na informação e ramificações por todo o sistema [1].

Nem todo problema perverso é obrigatoriamente um problema público, uma vez que a lógica dos wicked problems também abrange outros domínios, como contextos organizacionais e empresariais. Enquanto a denominação “perverso” se relaciona à natureza e complexidade do problema, a definição de problemas públicos, segundo Cefaï [2], refere-se à forma como são publicizados e tornam-se alvo de deliberação coletiva. Ocorre que grande parte dos problemas públicos podem ser caracterizados como perversos; alguns exemplos contemporâneos são conflitos socioambientais entre grandes multinacionais e comunidades no entorno de suas operações, questões ligadas à mobilidade urbana, migrações e mesmo pandemias, como a Covid-19. Esses problemas são classificados como tais porque sua própria definição é instável e varia de acordo com as chamadas “constelações de atores” às quais se relacionam – os públicos.

Problemas perversos desafiam o processo de comunicação pública, as formas deliberativas e participativas democráticas e, por consequência, a formulação de políticas públicas. Eles transcendem os limites da política tradicional, resistem às tentativas de solução e não podem ser equacionados ao longo de caminhos cartesianos ou lineares. Sua discussão pública é dificultada por incertezas, como a diferença entre recortes e enquadramentos (técnico, moral, econômico, jurídico) e assimetrias de poder (inclusive discursivo) entre atores e temporalidades conflitantes, uma vez que os processos de abordagem podem ser lentos e difusos, o que pode despolitizar os problemas e até mesmo retirá-los de pauta. Portanto, a delimitação depende de um processo de criação de consenso e consentimento, que envolve, além de decisões técnicas, julgamentos políticos e de valores.

Tentar negar a complexidade desses problemas, tratando seus sintomas sem lidar com as causas, pode até trazer alívio temporário, mas não é caminho para solução. Pode até mesmo criar quebra de confiança entre os atores envolvidos. É o caso da atuação de empresas multinacionais extrativas em países periféricos – caracterizada pela subordinação dos países anfitriões às agendas econômicas dominadas por corporações controladas por países centrais. A externalização dos custos socioambientais das operações para os territórios afeta de diversas maneiras os públicos no entorno, trazendo prejuízos que vão desde a contaminação do solo e destruição de ecossistemas a tragédias de grandes proporções, como as que ocorreram em Mariana e Brumadinho. A falta de comprometimento dos poderes públicos e sua intrínseca relação com as empresas pode levar a uma pseudopublicização desses problemas; por sua vez, essa exclusão e silenciamento dos públicos leva a uma dinâmica coletiva marcada por conflitos.

Simplificação e estratégias discursivas de minimização

Cientes de que os desgastes e disputas, inerentes aos problemas perversos, prejudicam a reputação das empresas junto aos acionistas e ao público em geral, corporações e governos tendem a priorizar soluções simplistas, evitando interferir nas atividades empresariais. Ao invés de tentar equacionar os problemas, por meio da colaboração e estabelecimento de relações de confiança, as organizações desenvolvem estratégias para mitigar e encobrir impactos e posicionar ações de remediação de danos como promoção de sustentabilidade. Estruturas poderosas de comunicação são acionadas, com vistas a promover o controle narrativo e reduzir a responsabilização da organização, minimizando impactos e relativizando o sofrimento das vítimas. Sofisticados mecanismos discursivos redirecionam o problema para fatores externos, como eventos imprevisíveis, “acidentes” e falhas sistêmicas. Com isso, o reconhecimento do problema, bem com sua exploração e delineamento de soluções deixam de ocorrer na esfera pública.

Além de silenciar os públicos e alijá-los do debate e discussão, estratégias de comunicação organizacional podem até mesmo transformar violações em oportunidade de crescimento e fortalecimento da imagem institucional. É o caso do greenwashing, definido como a “divulgação seletiva de informações positivas sobre o desempenho ambiental ou social de uma empresa, sem a divulgação completa de informações negativas nessas dimensões, de modo a criar uma imagem corporativa excessivamente positiva” [3]. Assim, mesmo que os danos causados por corporações sejam letais e economicamente devastadores, a percepção pública externa pode vir a subestimá-los, devido à forma como são tipificados, narrados e discursivamente “sanados”.

O papel do contradiscurso no combate à simplificação e na reconstituição da complexidade

O contradiscurso dos públicos é uma forma de contestação dos sentidos produzidos estrategicamente pelas organizações, que atua no sentido de produzir controvérsias e fomentar debates, em resposta à percepção de práticas injustas ou fraudulentas, corrupção e outras irregularidades. Ao publicizar os problemas e sua discussão, ele desestabiliza relações de poder e propõe novos sentidos para a realidade social, desconstruindo versões oficiais ou hegemônicas de um ato ou acontecimento. A exposição de lacunas, vieses, silenciamentos e interesses ocultos leva à desnaturalização de discursos institucionais, revelando o apagamento de vozes e a minimização ou omissão de fatos. O contradiscurso também opera a reconstrução discursiva, ao trazer novas evidências, perspectivas marginalizadas e enquadramentos críticos, para promover a releitura do acontecimento, reclassificá-lo e responsabilizar agentes que, de outra forma, não seriam responsabilizados. Nesse processo, os públicos passam de expectadores a atores; trata-se de uma forma de resistência simbólica, que desconstrói as explicações dominantes e reconstrói, de forma colaborativa e dialógica, no espaço público, narrativas de resistência, preservando a memória e fortalecendo a luta pela justa reparação dos danos.

A análise e comparação entre discurso organizacional e contradiscurso permite compreender a disputa simbólica em torno dos problemas, servindo como base para a organização de arenas discursivas que sustentem o dissenso, visibilizem os conflitos e impeçam a marginalização das comunidades pela naturalização de enquadramentos dominantes. Apesar de não existir solução ótima para problemas perversos, é possível lidar com eles por meio da coordenação e colaboração entre atores e organizações, e a comunicação exerce um papel fundamental, integrando várias racionalidades institucionais e subjetivas. Na arena pública, os problemas perversos podem se tornar inteligíveis e disputáveis, uma vez que os processos discursivos permitem aos públicos produzir visões concorrentes ou compatíveis, compartilhar essas visões e deliberar sobre elas.

Ao reinscrever no espaço público outras formas de narrar, sentir e significar conflitos, recoloca-se a experiência vivida no centro da disputa simbólica entre grandes empresas e comunidades. No tratamento de problemas perversos, a Comunicação é mais que uma “solução correta”. É o meio em que esses problemas existem, se definem, se transformam e podem, eventualmente, se tornar governáveis.

CLIQUE AQUI PARA RETORNAR

[1] RITTEL, H. W. J.; WEBBER, M. M. Dilemmas in a general theory of planning. Policy Sciences, v. 4, n. 2, p. 155-169, 1973.

[2] CEFAÏ, Daniel. Públicos, problemas públicos, arenas públicas… O que nos ensina o pragmatismo (Parte 1)Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 36, n. 1, p. 187-213, mar. 2017.

[3] LYON, T. P.; MAXWELL, J. W. Greenwash: Corporate environmental disclosure under threat of audit. Journal of Economics & Management Strategy, v. 20, n. 1, p. 3-41, 2011.

Para saber mais:

SOUZA LIMA, Ana Vitória Alkmim; MORE, Janaína Alves. Problemas perversos, soluções imperfeitas: uma análise do acordo de reparação integral pela tragédia da Barragem de Córrego do Feijão. Revista Alcance, v.33, n.1, p.1-20, 2026.

O IPÊ – Grupo de Pesquisa em Instituições, Públicos e Experiências Coletivas é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais

Identidade visual criada em parceria com a Agência de Iniciativas Cidadãs utilizando o Bora! Jogo do Design Colaborativo

Contatos:
E-mail: grupoipeufmg@gmail.com
Endereço: Av. Presidente Antônio Carlos, 6627 – Pampulha. Belo Horizonte, Minas Gerais. 

Grupo IPÊ / UFMG © 2025 - Todos direitos reservados

Política de Privacidade